quarta-feira, 15 de outubro de 2014

CONCURSO PMRJ 2014 Professor contesta banca de História. Veja análise

As questões da prova objetiva para soldado da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PM-RJ) continuam provocando polêmica. Especificamente em História, das cinco perguntas, três são citadas pelo professor da Degrau Cultural Fernando Müller como passíveis de anulação, o que não aconteceu. O professor fez uma análise tomando por base o caderno verde.
 
Segundo ele, a questão 22, que trata da Batalha de Jenipapo, deveria ser anulada por abordar um fato histórico local, não mencionado na bibliografia sugerida no edital, assim como em outros livros de nível médio. "A Batalha de Jenipapo de fato existiu, mas representou um acontecimento histórico muito específico, de alcance local e que não interferiu nos rumos da história do Brasil. Ao contrário do que a banca afirma, o tema não é recorrente em livros didáticos, nem mesmo aparece na grande maioria das edições atualizadas", argumentou.
 
Fernando Müller afirma que entre os professores e historiadores o assunto é desconhecido, e tal acontecimento não traz implicações relevantes para a história do Brasil. "Não faz sentido, portanto, a tese que a banca defende de que a Batalha de Jenipapo é 'considerada fundamental no processo de independência e consolidação do território brasileiro'", explicou.
 
Para Fernando, o candidato por não ter acesso ao que foi a Batalha de Jenipapo, não tem como chegar à conclusão da banca. "Inclusive, todas as alternativas de resposta poderiam ser válidas, diante da falta de divulgação desse episódio nos livros de História. Afinal de contas, os assuntos que aparecem em cada opção de resposta, como exploração dos grandes fazendeiros e revolta de negros escravos, fazia parte da realidade social daquele tempo, o que confunde o candidato. A conclusão a que se chega é que não é possível identificar a resposta correta", salientou.
 
Duas respostas - A questão 23, que trata do sentido da colonização do Brasil, também é citada para anulação, por apresentar mais de uma opção correta (B e D). De acordo com Fernando Müller, a banca copiou um trecho do livro História do Brasil, de Luiz Pereira Koshiba. "A resposta é simplesmente a continuidade do trecho copiado, que é a citação de Caio Prado Júnior", garantiu.
 
Segundo o professor, a banca defende que o propósito da colonização era de fato explorar economicamente o Brasil colonial, por meio de gêneros tropicais e da extração de metais preciosos, conforme a alternativa B. Já na letra D, a organizadora considera "na centralização do poder como condição para os países saírem em busca de novos mercados". Fernando ressalva que na mesma publicação o autor Koshiba diz que a centralização política do poder em torno dos reis é pré-requisito para a expansão marítima. "E é a expansão marítima e comercial que permite a conquista de terras na África, Ásia e América, e assim estabelecer o sentido de colonizá-las: explorar economicamente essas terras", disse.
 
Segundo Fernando, Francisco Alencar, na página 23 do seu livro citado pela banca, explica que "as colônias são áreas complementares da economia central, metropolitana". Para Fernando não era possível garantir a colonização e gerar lucros com ela sem desbravar o mar em busca de novos mercados. "Como diz Alencar 'navegar era preciso', já que isso 'ampliaria as fontes de renda do Estado monárquico', citado na página 9. E isso se daria com a conquista e a colonização de novas terras, como foi o caso do Brasil. Do ponto de vista histórico, portanto, essa afirmativa também está correta, o que anula a questão".
 
Fernando Müller pede a anulação também da questão 25, que aborda as Reformas Pombalinas, porque apresenta duas opções certas (B e D). "A banca, nos seus argumentos, fala sobre 'plano interno', que é vago e não esclarece ou direciona sobre o que exatamente o termo se refere. A expressão pode se referir a toda a estrutura do império português, o que envolve funcionários e jesuítas. A banca restringe o seu destaque à menção de que os jesuítas foram expulsos para dar fim às contendas envolvendo os colonos e os jesuítas, apenas. Na verdade, as Reformas Pombalinas também desagradaram aos jesuítas", explicou.
 
De acordo com Fernando, a proposta das Reformas Pombalinas era fortalecer o poder do Estado português, centralizado na figura do rei, eliminando quem representasse um obstáculo à sua autoridade. Para o professor, a questão 21, sobre a Insurreição Pernambucana, e a 24, que aborda a Revolução de Avis, não são anuláveis.

Comentários sobre as questões da prova de História segundo a ordem da prova verde:
 
Questão 21: Trata da Insurreição Pernambucana; não cabe anulação. A questão está dentro do conteúdo programático descrito no edital e não há erro na sua formulação.
 
Questão 22: Trata da Batalha de Jenipapo; cabe anulação. A batalha de Jenipapo de fato existiu, mas representou um acontecimento histórico muito específico, de alcance local e que não interferiu nos rumos da história do Brasil. Ao contrário do que a banca afirma o tema citado não é recorrente em livros didáticos, nem mesmo aparece na grande maioria das edições atualizadas. A batalha de Jenipapo não consta na esmagadora maioria dos livros didáticos de história. O assunto nem se quer é mencionada nos livros apresentados pela banca no edital (Gilberto Cotrim. “História Global: Brasil e Geral”; Luiz Pereira Koshiba e Denise Manzi Frayze Pereira. “História do Brasil: no contexto da história ocidental” e Francisco Alencar, Lucia Ribeiro e Marcos Ribeiro (“História da Sociedade Brasileira”). Entre os professores e historiadores o assunto é desconhecido e tal acontecimento não traz implicações relevantes sobre a história do Brasil. Não faz sentido, portanto, a tese que a banca defende que a batalha de Jenipapo é “considerada fundamental no processo de independência e consolidação do território brasileiro”. O candidato por não ter acesso ao que foi a batalha de Jenipapo não tem como chegar a esta conclusão. Observando a questão todas as alternativas de resposta inclusive poderiam ser válidas ao candidato diante da falta de divulgação deste episódio nos livros de história. Afinal de contas os assuntos que aparecem em cada opção de resposta, como exploração dos grandes fazendeiros e revolta de negros escravos fazia parte da realidade social daquele tempo o que confunde o candidato. A conclusão que se chega é que não é possível ao candidato identificar na prova qual a resposta correta a ser marcada no cartão resposta. 
 
Questão 23: Trata do sentido da colonização do Brasil. A banca copiou todo um trecho do livro “História do Brasil” de Luiz Pereira Koshiba. A resposta é simplesmente é a continuidade do trecho copiado que é a citação de Caio Prado Júnior. A banca defende O propósito da colonização era de fato explorar economicamente o Brasil colonial através da exploração de gêneros tropicais e da extração de metais preciosos (letra B). Em outra alternativa de resposta a banca diz que “na centralização do poder como condição para os países saírem em busca de novos mercados” (letra D). Na mesma publicação o autor Koshiba diz que que a centralização política do poder em torno dos reis são pré-requisitos para a expansão marítima. E é a expansão marítima e comercial que permite a conquista de terras na África, Ásia e América e assim estabelecer o sentido de colonizá-las: explorar economicamente essas terras. Francisco Alencar no seu livro citado na banca fala que “as colônias são áreas complementares da economia central, metropolitana” (pagina 23). Não era possível garantir a colonização e gerar lucros com ela sem que desbravasse o mar em busca de novos mercados. Como diz Alencar “navegar era preciso” já que isso “ampliaria as fontes de renda do Estado monárquico” (pagina 09). E isso se daria com a conquista e a colonização de novas terras, como foi o caso do Brasil. Do ponto de vista histórico, portanto, esta afirmativa também está correta o que anula a questão.
 
Questão 24: Cita a Revolução de Avis (século XIV) como causa da expansão marítima e das conquistas ultramarinas portuguesas (esta que é o primeiro tópico citado no conteúdo programático). Analisando com mais atenção do ponto de vista das mudanças que Portugal passou realmente a opção letra C é errada. Esta opção de resposta trata da realidade do comércio das riquezas orientais era feita pelos genoveses via o mar Mediterrâneo. Portugal não participava do comércio feito pelos genoveses, por isso mesmo buscou um caminho alternativo de navegação. Não cabe recurso. 
 
Questão 25: Trata das Reformas Pombalinas. A banca nos seus argumentos sobre a questão fala sobre “plano interno” é vago, não esclarece ou direciona sobre o que exatamente o termo se refere. A expressão pode se referir a todo a estrutura do império português o que envolve funcionários e os jesuítas. A banca restringe o seu destaque a menção de que os jesuítas foram expulsos para dar fim às contendas envolvendo os colonos e os jesuítas apenas. Na verdade as reformas Pombalinas também desagradaram aos jesuítas. Conforme nos informa o autor Luiz Koshiba (“História do Brasil”, pg. 60, edição de 1996) a expulsão dos jesuítas significava diminuir a influência dos mesmos que se tornou forte e ameaçadora aos interesses do Estado português. Os jesuítas gozavam de autonomia e privilégios para realizar o trabalho da catequese desde o governo geral de Tomé de Souza em 1547. O cuidado com os índios nas missões jesuíticas geravam lucros para os jesuítas com o comércio das drogas do sertão. Eles também educavam os filhos dos colonos mais influentes gozavam, portanto, de bom relacionamento com indígenas, brancos e o próprio governo português. Diante disso, os jesuítas conseguiram acumular fortuna com a posse de enormes extensões de terras, engenhos e instituições de ensino. A influência dos jesuítas foi crescendo e eles passaram a ter uma certa independência em relação ao Estado e até da própria igreja. A proposta das Reformas Pombalinas era fortalecer o poder do Estado português centralizado na figura do rei eliminando quem representasse um obstáculo a sua autoridade. Diante disso cabe anulação, pois existem duas respostas corretas.

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